Coisas que me intrigam (uma visão não jurídica do casamento entre pessoas do mesmo sexo)
No entanto, nesta discussão tem-me intrigado que aqueles que defendem o casamento de pessoas do mesmo sexo são exactamente os mesmos - sociológica e ideologicamente são os mesmos - que recusam o casamento civil com o anátema da relação de papel passado, do modelo de vida conservador e burguês, do cerceamento à liberdade individual e à felicidade terrena. Quer dizer, ao menos podiam ser sinceros como o Ricardo Araújo Pereira quando lhe perguntaram se concordava com o casamento gay:"não recomendo...".
Até compreendo (embora não concorde) que os casais homossexuais aspirem a um conjunto de direitos que o actual regime da união de facto não lhes garante: no essencial, adopção e direitos sucessórios. Como compreendo (mas não concordo) que, numa amnésia cómoda, se esqueçam das múltiplas condicionantes e desvantagens do casamento: ilegitimidades conjugais para administrar e vender bens próprios ou comuns, dívidas conjugais, impossibilidade de vendas e outros contratos entre ambos, impossibilidade de mudar o regime de bens, obrigações de alimentos and so on.
Mas o que realmente me causa espécie é esta vontade repentina do papel passado, da instituição burguesa, desta amarra bafienta e tão middle class do matrimónio.
É que não diz a cara com a careta.
*Sophia de Mello Breyner, 25 de Abril


























