Aterra uma mãe trabalhadora, ao fim de uma semana de labuta, no sofá da sala e liga a televisão. Nos principais canais portugueses, cabo incluído, desfilam programas com "painéis" de comentadores. Os assuntos: política e futebol. Entenda-se, não se discute desporto e a "vida da cidade", mas debitam-se opiniões, palpites, meros "bitaites (como se diz na minha terra) sobre casos, árbitros, frases ditas polémicas, conversas de bastidores. Tudo muito elevado e de grande importância. Às tantas, paro no canal onde, num debate moderado por Mário Crespo, fala o deputado do PC Rúben de Carvalho e outro da oposição de quem não me ocorre o nome. Fico ali uns minutos porque desde o dia em que ouvi uma entrevista com o deputado comunista em que este se dizia admirador confesso dos E.U.A e cuja cidade favorita era Nova Iorque, tento sempre encontrar uma explicação razoável para tamanho paradoxo. Na sexta-feira, o deputado mostrava-se indignado com uma conversa filmada pela TVI entre os ministros das Finanças alemão e português, alegadamente escandalosa, na opinião do próprio ; já na minha modesta opinião, a coisa não passou dos galhardetes próprios destas ocasiões e se aquilo incomodava alguém só poderia ser o contribuinte alemão que previa mais um saque ao seu bolso...adiante. Mas o deputado estava verdadeiramente chocado com a posição relativa, em sentido literal, dos visados. Pois não era que o Gaspar se tinha baixado, em pose servil, e o outro nem se dignara a levantar para falar com o seu homólogo?!! Esperei pacientemente (e irritada) que ao menos o Crespo lhe fosse dizendo que er...como se há-de dizer isto...o ministro alemão...pois...é paraplégico..anda em cadeira de rodas, pois, levantar-se era difícil, pois... Mas não disse, presumo que por delicadeza, para o outro não ficar, como se diz, com "cara de tacho", era aborrecido.
Consta que, entretanto, igual pérola saiu da boca de um outro comentador encartado, um tal de Adão qualquer coisa (só me ocorre o Adão Oculista, não sei porquê), rapaz igualmente brilhante e perspicaz e, ao que parece, também distraído.
No resto do fim-de-semana ainda passei os olhos por jornais que falavam abundantemente de uma declaração do PM sobre a pieguice dos portugueses. Com esforço, dei-me ao trabalho de ler o discurso e não percebi porque estavam as donzelas ofendidas, mas enfim, o defeito seve ser meu. Mas confesso que me dava muito jeito ter cá em casa estes glosadores da
res publica. É que tenho sérias dificuldades em entender o discurso da pré-adolescente que repete "tipo" e "ok" três vezes em cada frase e o poema da "Chuva Oblíqua" sempre me pareceu impenetrável.